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O meu clube e nada mais

Data: 21/06/2019

 

 

Eu sempre dividi os torcedores em dois tipos bem distintos. Há os chamados “fanáticos”, aqueles que só enxergam o seu time e mais nada, e os “fãs”, que amam seu clube favorito, mas gostam do futebol como um todo. Mas sinto que nos últimos anos o número dos fanáticos aumentou consideravelmente. Para esse grupo, não existe o futebol, só o seu clube. Não há mais apenas as discussões técnicas. Aquelas em que se defende qual time é melhor ou a defesa do craque do clube. Hoje se comemora anúncio de renda, resultado de balanços, número de sócios-torcedores, camisas vendidas. Lógico que são temas relevantes, que podem fazer um time vencedor ou não, mas tudo isso faz se esquecer o que acontece em campo.

Esses fanáticos são responsáveis para que se use cada vez o mais o termo “clubismo”. Que para eles é tudo que eles julgam ser contra o seu clube. Ou seja: 99,9% que se comenta do seu clube, pois eles têm certeza que há um grande complô orquestrado contra o sua paixão. Os fanáticos gostam de bater no peito e dizer que são “mais torcedores” do que qualquer um que veste a mesma camisa.

Uma pena.

Minha relação com o futebol sempre foi diferente. Eu amo muito mais o jogo do que o meu time. Pequeno, lembro de meu pai e meu avô me levarem em jogos do time que torcíamos, mas também ir aos jogos de grandes times – e os agradeci sempre por isso. Adorava as histórias que eles contavam antes das partidas, com o gramado vazio ficavam imaginando as jogavas que eles narravam – algumas já viraram textos. Ir ao estádio me fascinava – ainda sinto isso.

No início dos anos 1970, além do Palmeiras, vi muitos jogos também do Santos, Internacional, Cruzeiro, Botafogo…, clássicos entre os outros times de São Paulo e acompanhei muitos jogos do Juventus na Javari também – que hoje virou moda e cult.

Sem ver esses jogos todos eu nunca poderia dizer que eu vi usando a camisa 10 dos grandes paulistas nomes com Ademir da Guia (Palmeiras), Rivellino (Corinthians), Pedro Rocha (São Paulo) ou Pelé (Santos). Ou prazer de ouvir, no alambrando do Pacaembu, o barulho que a bola fazia quando o Nelinho batia uma falta, a elegância do jovem Falcão em campo… (são lembranças que me tiram um sorriso enquanto teclo essas palavras). E ter os meus primeiros ídolos no futebol, Clodoaldo e Edu, que eram do Santos, clube que não é o meu favorito.

Depois na adolescência, ir ao jogo era um programa de domingo. Marcar com os amigos, ir de ônibus ao Morumbi, que era muito mais longe do que hoje, viajar ao Interior, depois, já com carro, encarar um “bate-volta” ao Rio de Janeiro. Continuava não vendo só os jogos do meu time, a escolha era por um grande jogo ou até para conhecer um estádio.

Não consigo ver mais histórias assim – ou elas são cada vez mais raras. Com os fanáticos em crescimento, os grupos só se reúnem para falar de seus times. Se eu perguntar qual o último jogo que te fez ir ao estádio sem que o seu time não estivesse em campo – ou de seleções – você não vai se lembrar ou dirá que nunca fez isso. Acertei? Atualmente, aqueles que amam mais o futebol do que seus clubes não vão aos estádios ver jogos de outros times. Eles ficam na TV vendo jogos dos campeonatos europeus.

Sim, os preços são altos, há uma crise econômica nos países da América do Sul, o brasileiro historicamente não dá importância para a Copa América… mas, a baixa presença de públicos nos jogos do torneio continental mostra que esse fanatismo demasiado pelos nossos clubes também faz muita gente se afastar da seleção e das competições que ela participa, como a atual Copa América – a Copa do Mundo ainda (não sei até quando) é uma competição diferente.

Para os torcedores que só enxergam seus clubes, a seleção é considerada uma concorrente (ou rival mesmo) . Ela tira os principais jogadores dos clubes em momentos importantes e se, por muitos anos, ter um jogador na seleção era questão de orgulho, hoje é motivo de preocupação, pois a convocação é o primeiro passo para um jogador ser vendido para o exterior.

Por fim, sei que pode ser impossível deixar de amar nossos clubes, mas peço que vocês enxerguem a beleza do jogo (que ainda existe) e que possam valorizar (um pouco, não precisa ser muito, aí seria demais) os adversários. É muito mais prazeroso ganhar de adversários fortes e não lixos (desculpem a expressão, mas ela é uma palavra muito usada por vocês fanáticos quando precisam criticar algo dos outros clubes ou quem escreve algo contra o seu time).

Ganhar de times que você considera grandes adversários, realmente prova como o seu time é tão espetacular quanto você pensa.

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